sábado, 14 de agosto de 2010

A "lógica", el Mago, e o futebol.

Olá, leitores. Este post está dividido em 04 partes.

PARTE I

Hoje meu post tratará de um assunto que há muito deveria já ter sido tratado neste blog. Talvez eu estivesse esperando a oportunidade certa para falar deste assunto. Esta semana apareceu a oportunidade de ouro. Lá vou eu, então.

Há alguns séculos o "homem ocidental" (usei esta palavra por não ter outra melhor) deixou de trabalhar pra viver, e passou a viver para trabalhar. O dinheiro deixou de ser um meio para atingir as coisas, e as coisas (e até mesmo as pessoas, em alguns casos) se tornaram um meio para chegar ao dinheiro.

É lógico, leitor crítico, que há exceções a isso. Mas imagino que você não discordará de mim se eu disser que a maioria das pessoas "proeminentes" de nossa sociedade acabam por seguir a lógica que descrevi acima. Muitas delas têm justamente nesta lógica a origem de sua proeminência. Nossa sociedade premia com prestígio e reconhecimento social os que "trabalham pesado" e têm grandes riquezas como fruto deste trabalho. São essas pessoas os "modelos" para nossa sociedade, basta ligar a TV ou sair na rua para averiguar isto.

PARTE II

Pois bem. Nesta semana a Sociedade Esportiva Palmeiras apresentou seu reforço, Jorge Luís Valdivia Toro, ou simplesmente "Mago Valdívia" para os palestrinos.

E este blogueiro particularmente é um grande fã deste jogador (tanto que a única imagem permanente deste blog é um gesto de "psiu" feito por este jogador em um dos últimos grandes jogos que tivemos a oportunidade de assistir).

Talvez isto se deva ao fato de que eu, o blogueiro, não vejo o futebol apenas como um jogo. O Vôlei é um jogo. O Tênis é um jogo. O Xadrez é um jogo. Nenhum deles desperta tantas paixões humanas como o futebol. Somente por futebol (e por mais nenhum outro esporte) é que se vive, se mata e se morre. Exatamente por isso que defendo a idéia de que o futebol é algo muito maior do que um simples jogo.

E o Mago Valdívia talvez não seja o mais técnico dos jogadores, apesar de ter jogado a Copa da África-2010 com a 10 do Chile às costas. Mas não é somente sua técnica o que me encanta. Valdívia tem uma capacidade raríssima no futebol moderno: ele sente o jogo. Ele provoca os adversários. Brinca com a bola. Leva a torcida (e este blogueiro) ao delírio, seja com seu "drible do vento", seja pelo fato de não ter vergonha de entortar os adversários com seus dribles, ou pelo fato de provocá-los nas comemorações. Corinthianos, e são-paulinos, nossos dois maiores adversários, sabem do que estou falando.

PARTE III

Em meados de 2008, poucos tempo depois de a S.E. Palmeiras ter se sagrado campeã paulista, Valdívia, mesmo não querendo, acabou sendo vendido. A lógica financeira falou mais alto pelos lados do clube. Aqueles poderiam ter sido os R$ 20 milhões (valor recebido pelo clube) mais caros de nossa história.

A partir do início do ano de 2009, momento que Luiz Gonzaga Belluzzo foi eleito presidente da S.E. Palmeiras, nossa diretoria caiu na real e começou a se mexer pra que os ídolos recentes do clube para cá voltassem. Este movimento está atingindo seu ápice agora, no segundo semestre de 2010. Primeiro voltou Kléber, o Gladiador. Depois, Felipão. Faltava alguém, entretanto. Alguém que nos fazia tanta falta quanto os dois anteriores.

O Palmeiras não tinha, entretanto, dinheiro suficiente para fechar o negócio. Nos faltava pouco mais de R$ 5.000.000,00, o que não é pouca grana. Eis então, que surge o protagonista principal do post de hoje (e não é o Mago Valdívia): Osório Furlan.

Este cara provavelmente não é um nome conhecido de nenhum de meus leitores. Ele é palmeirense, e também é executivo do alto quadro da Sadia. Ao saber que o que faltava para que "El Mago" enfim voltasse para a S.E.P. estava a seu alcance pessoal, foi lá e pôs sua grana.

CONCLUSÃO

É verdade que receberá no futuro seu dinheiro de volta do Palmeiras. Mas não levarei em conta aqui possibilidades do tipo: "ah, ele fez isso para ganhar prestígio político dentro do clube", ou "ele receberá parte do lucro se o atleta for vendido posteriormente", mesmo sabendo que elas podem realmente ser verdadeiras.

Prefiro ficar com o trecho:

" Eu me ofereci, o Belluzzo não me procurou para isso (para que colocasse o dinheiro que faltava). Não fiz pensando em lucro, o retorno virá. Não quero morrer rico, quero morrer feliz." Fonte: Lancenet

Esta última frase, particularmente, me pegou em cheio. O cara está abrindo mão (por algum período de sua vida) de R$ 5,1 milhões. R$ 5,1 milhões que eram sua propriedade, é bom que se diga.

Lembra da "lógica financeira Ocidental" que descrevi no início deste post, caro leitor? Não foi por esta que Furlan conduziu sua ação. Para este homem o dinheiro voltou a ser um meio. Um meio de trazer alegria. Quer melhor maneira de se gastar o dinheiro que esta? Há uma finalidade melhor que esta? Osório Furlan fez, nesse processo, um bem para si. Mas fez um bem muito maior para mim e para todos os que amam este clube. Todos os palestrinos poderão, novamente, ver um de seus melhores jogadores dos últimos tempos em ação, nos representando.

Mas o que é mais emocionante é saber que temos lá em cima pessoas que respeitam e amam o clube do mesmo jeito que fazemos aqui em baixo. Melhor ainda é ver, por meio de um ato como esse, que o Palmeiras é algo que está acima da "lógica" (o que é que é lógico, afinal?!), mesmo que seja só para um cara, e só por um instante.

Pode ser que tudo isto não passe de ilusões e idealizações minhas. Sim, pode ser. Mas prefiro acreditar nisso, pelo menos até quando eu acordar amanhã de manhã.

Longa vida à SEP. Longa vida ao futebol e à superação que ele promove nos homens, estejam eles dentro ou fora de campo.

"Não quero morrer rico, quero morrer feliz." O. Furlan - (eu disse que ainda escreveria algo sobre isso)

Paro por aqui por hoje.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Ocidente dos antropólogos

Nas férias não tenho a obrigação de ler nada. Talvez seja por isso que as postagens neste blog se tornem mais freqüentes justamente durante o período de férias. Quando a carga de leitura diminui, a carga de raciocínio aumenta.

O post de hoje será absolutamente massante para quem não se interessa por ciências humanas (leia-se antropologia, nesse caso). Mas como a idéia do blog é justamente a de escrever o que acho que deva ser escrito, lá vou eu:

Não sei se existe de fato (um tipo de) "propósito final" na antropologia. Talvez não. Mas certamente pode-se dizer que uma de suas premissas é jamais avaliar o outro de acordo com seus (de quem avalia) próprios parâmetros. Se alguém o faz, este alguém é um etnocêntrico, um cara que avalia outros grupos de acordo com os parâmetros dos grupos nos quais o etnocêntrico está inserido. Esta é uma das lições mais básicas que se aprende em um curso de antropologia.

Pois bem. Pelo pouco que estudei desta matéria, pude perceber que uma forte corrente que se desenvolve nela é o estudo de agrupamentos periféricos (indígenas, na maioria das vezes) e a busca, dentro desses agrupamentos da forma pela qual eles se constroem enquanto grupo.

Isso é muito bonito, em minha opinião. Uma vez que a maioria das pessoas tende a avaliar determinado grupo de acordo com parâmetros que não são os do grupo avaliado, é um trabalho realmente nobre buscar compreender o outro da mesma maneira pela qual ele próprio se concebe.

É a partir daqui que eu entro. Conversando com alguns amigos meus da área, tenho percebido uma recorrente preocupação com a compreensão de grupos periféricos. Não acho que isso não deva ser feito, é bom que se diga.

O problema é que percebo uma espécie de "sinismo" nisso tudo. Sei que a palavra é pesada. Mas é meio revoltante, leitor. Vou explicar a origem da minha "revolta":

Os antropólogos são sempre os primeiros a dizer que não existe raça, cultura... provavelmente em algum tempo nem mesmo a divisão de "sexo" irá sumir. Beleza. O problema é que os estudantes de grupos periféricos buscam sempre uma comparação com o "Ocidente". Este post gostaria de perguntar aos antropólogos:

Quem é o Ocidente?

É a baiana que se veste com aquelas roupas brancas tradicionais, vende acarajé e reza para Iemanjá? Ou é o gaúcho que veste bombacha, toma chimarrão e dança fandango? Ou é o americano que ouve Lady Gaga, dança Michael Jackson e come no McDonald's? Quem é o Ocidente? São todos eles? Ou não é nenhum deles?

Mais ainda:

Se existe uma constante insistência em dizer que cada lugar é um lugar, e que cada "cultura" (sempre com aspas) é uma cultura, então por que é que se põe o "Ocidente" inteiro dentro do mesmo saco? Dª Antropologia, a senhora não julga falar em "Ocidente" um erro conceitual de sua própria constituição? Isso não é uma (espécie de) "generalização do ingeneralizável"?

Me arriscaria dizer que é um mero recurso retórico que permite aos estudantes de grupos periféricos dizer algo do tipo:

"Está vendo, os Xs têm uma concepção de espaço diferente dos ocidentais." ou "Enquanto no Ocidente se pensa assim, nos Ys se pensa de outro jeito." Mas os ocidentais têm realmente entre si uma concepção de espaço que é homogênea? Os ocidentais pensam do mesmo jeito?

Será que o "propósito final" (se é que este existe) da antropologia é se tornar um almanaque de curiosidades? Se não é, gostaria de saber que é "o Ocidente dos antropólogos".

Acho que já fui suficientemente claro em minha proposta. Vou parar por aqui.

É isso.

domingo, 18 de julho de 2010

Polêmica pra cachorro

Minha cabeça está pouco fértil esses últimos tempos. Isso não quer dizer que ela tenha parado de pensar, é bom que se diga.

O post de hoje se dedicará a polemizar. Acho que o que defenderei nele não será algo com que meus leitores(as) concordarão. Entretanto, como o nome do blogue já supõe, não há razão para se recear que ele defenda coisas doidas, não é verdade?

Pois bem. Recentemente recebi em meu email uma mensagem que se referia a um projeto de lei que, se entendi bem, visava proibir o sacrifício de animais no estado de São Paulo. Acho que era isso.

Meu escrito de hoje não se referirá diretamente a esta lei, mas sim ao tipo de relação que julgo ser cabida entre homem e animal dentro de uma sociedade (ao menos) predominantemente humana.

De uns tempos pra cá entrou na moda defender direitos dos animais. Do mesmo modo que também entrou na moda defender o verde e a preservação da natureza. Há 15 anos esse "discurso naturalista/preservacionista" era bem periférico. Hoje é ele quem predomina.

Não sou a favor do assassinato de cães nem da destruição da natureza. É bom que isso fique claro.

Mas o que me incomoda é o discurso de parte dos ativistas (principalmente dos) que defendem os "direitos dos animais". A meu ver, eles colocam os animais na frente dos seres humanos. É isso pra mim o que é inadmissível. Vou repetir: INADMISSÍVEL.

Como me dá raiva ver programas de TV (leia-se Luisa Mell e afins) em que se mostra Shopping para cachorros, estilista para cachorro, psicólogo (pasmem!) para cachorros. O que mais me espanta é saber que tem gente que se digna a gastar dinheiro com (me desculpe) absurdos desse tipo.

Enquanto isso, gente dormindo sobre papelão em calçadas não tão distantes, crianças pedindo esmola na rua, meninas vendendo o corpo aos 12 anos. E gente levando o seu lindo cãozinho ao dog stylist (acredite, esta aberração realmente existe). Muito bonito!

Aí vem o Exmo. Deputado (ou Vereador, ou sei lá o quê) propor que não se sacrifique os cães sem dono do estado. Pergunto ao propositor e aos defensores deste projeto de lei: é quem é que vai cuidar dos cães que não têm dono?

Eles serão cuidados pelo poder público? Então o governo terá que gastar dinheiro para alimentar e cuidar desses cães, certo? Hmmmm... então o que se poderia gastar em transporte, educação, saúde (humana, lógico) se gastará cuidando dos cães sem dono. Hmmmm... ótima maneira de gerir o dinheiro!

Ou então eles serão largados pelas ruas? Para serem atropelados pelos carros que passarem? Para ficarem sujeitos a doenças (que também podem matá-los) e transmití-las aos humanos? Isso realmente é melhor que o sacrifício?

Acho que a única maneira de um projeto de lei como este se tornar socialmente viável é a seguinte:

Uma ONG de defensores dos "direitos dos animais" se prontificar perante a sociedade a gerir com DINHEIRO PRIVADO os cães sem dono da cidade. A essa ONG ficaria a incumbência de promover um eficiente sistema de adoções, e cuidar dos animais enquanto sem dono. Com o dinheiro que ELES forem capazes de arrecadar de maneira privada. Aí sim. Não se pode admitir que se gaste dinheiro público com animais, enquanto há humanos com sérias necessidades, e uma vez que não são os animais os que pagam impostos.

Na inexistência de uma organização PRIVADA que se dedique (e se comprometa com o poder público e preste contas a ele) a isso, não se pode proibir o sacrifício de animais sem dono.

Sou defensor da idéia de que animais devem pertencer à esfera privada, com algun(s) cidadão(s) responsabilizando-se por esse(s) animal (is). Enquanto não perturbarem a ordem pública, ótimo. Se isso não ocorrer, o que vale é a lei da selva.

Para encerrar, uma historinha sobre isso:

Conta-se que na China colonial, devido ao fato de o Império passar por sucessivas crises de fome, o imperador certa vez proibiu que houvesse cães e gatos pelo império. Animal achado era animal na panela.

Justíssimo, a meu ver.

Não se pode admitir que em um lugar onde se passa fome alguém ouse dar comida a um animal ao invés de alimentar a outro humano.

É justamente nessa linha que defendo ser um absurdo se gastar dinheiro cuidando de animais enquanto há outros humanos (como o(s) dono(s) deste dinheiro) com mais necessidades, sendo estas muito mais importantes de serem atendidas do que as dos animais.

É isso.

sábado, 15 de maio de 2010

Amandos e Sucessandos

Como meus leitores mais assíduos já devem ter percebido, tudo que tange as relações entre pessoas é um tema muito caro a este blogueiro. Em um post anterior falei sobre o amor. Essa eu considero a capacidade (nem sempre aproveitada) mais importante que todos possuem. É um raro tesouro que, quando posto em ação produz um bem igualmente grande tanto para o indivíduo quanto para o coletivo em que este se insere.

Como deixei bem evidente naquele post, tenho consciência de que não são muitos os que se aproveitam desta capacidade, um vez que ela exige tempo, devoção, paciência e um monte de outras virtudes que não é necessário explicar para quem ama, e é impossível explicar para quem não ama (blasé). Este blogueiro acredita que o amor é o caminho mais seguro para felicidade, seja ela individual, seja ela coletiva.

Como escrevi no outro post, um blasé pode tentar a busca de sua felicidade por meio do sucesso, do sucesso próprio. O sucesso não demanda relações profundas com ninguém a não ser consigo próprio. Isso põe o sucesso muito mais próximo do alcance do que o amor.

É importante que eu defina a que estou me referindo com a palavra sucesso: é toda e qualquer finalidade individual, seja ela política, econômica, acadêmica, profissional... que pode ser alcançada por meio de algum planejamento racional, e que não atribui nenhuma importância para o amor.

Enquanto quem ama (que, para facilitar a escrita e a leitura chamarei de "Amando") tem que estar a todo o tempo preocupado consigo próprio e com que(m) ama, quem busca o sucesso pessoal (que chamarei se "Sucessando") só tem que se preocupar consigo próprio e com seus intentos pessoais.

Há, entretanto um problema. O Sucessando está tão ou mais imerso no mundo das pessoas quanto o Amando. Mais que isso, o Sucessando depende de muito mais gente do que o Amando.

(Como bem lembrou minha amiga Dani em um comentário ao referido post, não se pode amar a tudo e a todos ao mesmo tempo)

O amor torna certas pessoas/entidades especiais. Essas pessoas/entidades são, portanto, "selecinadas" por quem as ama (os Amandos). Já diria Weber, esta é uma relação social comunitária, que nesse caso se baseia no amor (e faz parte de uma ação social afetiva).

O sucesso já diverge nisso: ele não é um sentimento, mas sim uma finalidade a ser alcançada. Algo racional, portanto. Então, quem visa o sucesso não escolhe com quem se relacionar (durante o tempo em que agir com a finalidade do sucesso, logicamente): se relaciona com quem tiver maior potencial para alavancar-lhe ao sucesso, independentemente de quem seja a pessoa. Ele (Sucessando) converte a relação que tem com outras pessoas em um relação que se tem com um meio (para o sucesso) ou com um obstáculo (ao sucesso). Marx já dizia algo parecido com isso, mas falava da conversão da relação entre pessoas em uma relação entre coisas. Em ambos os casos ocorre uma objetivação das relações pessoais.

O Sucessando é incapaz de enxergar em sua frente algo que divirja do seguinte binarismo: pessoas-meio X pessoas-obstáculo. É com esse tipo de gente (?!) que ele se relaciona.

Eventualmente dois ou mais Sucessandos podem se agregar em torno de uma causa comum a que ambos aspirem. Um se torna uma pessoa-meio para o outro, e dessa maneira eles se agregam. Estabelecerão entre si uma relação de fidelidade, uma vez que há um objetivo em comum sendo perseguido por todos eles. Hmmmmm..... então este é um caminho por meio do qual aproximaram-se do amor os Sucessandos, certo?

Errado!

Uma relação que se estabelece pela existência de um fim comum a todas as pessoas não torna as outras pessoas indispensáveis! Muito pelo contrário, este tipo de relação torna o fim (e somente o fim) indispensável, e as pessoas totalmente dispensáveis.

A partir do momento em que um Sucessando disser para o outro que o fim a que buscam já não é mais o mesmo, irá cada um para seu lado (novamente). Não há nada, absolutamente nada que seja capaz de mantê-los juntos. Se eles se unem é exclusivamente porque há entre eles um objetivo comum. Acabou o objetivo, acabou a relação. Desse jeito. Utilitarismo puro. Os Sucessandos devem conhecer bem esta lógica.

Isso na melhor da hipóteses, já que ainda existe a possibilidade de um Sucessando trair o outro (o que, acredite, não é nada raro). Nesse caso, a glória do Sucessando traidor nunca é maior do que o fracasso do Sucessando traído. Numa situação de traição, o Sucessando traidor muito se orgulhará de ser um Sucessando, e o Sucessando traído se arrependerá (ao menos por um instante) amargamente de ter estabelecido uma relação com este outro Sucessando.

Pode ser que (o traído) se perguntará desesperado "por que razão não sou Amando, meu Deus do céu?". Entretanto, eu acho mais provável que ele se pergunte "por que fui tão burro e não o traí antes?". Não nos esqueçamos de que um Sucessando é racional.

Falando nisso, onde estavam os Amandos durante todo esse tempo? -Bom, provavelmente estavam sorrindo e comendo o bolo que prepararam juntos. Benditos sejam os Amandos. Espero que em algum dia desta minha vida consiga me tornar um deles.

É isso por hoje.

sábado, 24 de abril de 2010

Liberdade?

Quanto mais estudo menos penso. É esta a razão de um lapso tão grande entre o último texto e o de hoje. Já faz mais ou menos 60 dias desde a última postagem, a do Zico.

Bom, hoje mais uma vez começarei meu escrito me referindo à famigerada Revolução Francesa. Não tenho muito como fugir dela, pois é ela o fato que marca o início de Modernidade, e de todos os problemas que esta trouxe consigo.

Feita por uma classe burguesa que estava em busca de emancipação dos moldes da sociedade tradicional, que não lhes (aos burgueses, e todo o resto que não era nem clero nem nobreza) permitia ascensão política, e desta maneira lhes submetia ao poder da nobreza e do clero (cuja extensão se dava por sangue/hereditariedade, e não por posses), a RF (Revolução Francesa) trouxe consigo os ideais que guiam as sociedades modernas até hoje: Liberdade e Igualdade (há também a Fraternidade, mas não tenho esta por objeto em meu texto de hoje).

Uma sociedade em que os homens fossem iguais e livres permitiria aos burgueses ter tanto poder quanto qualquer clérigo ou nobre (o que seria impensável antes disso). Isso nesse tempo foi realmente chocante, um absurdo. Por isso se chamou Revolução (e não Evolução, por exemplo).

Fazendo o link com as sociedades Modernas, que se dizem democráticas, há uma tendência em todas suas legislações que tende a fazer com que a liberdade de um indivíduo e a igualdade deste perante os outros seja incontestável.

Para Kant, ser livre é ser autônomo, isto, é dar a si mesmo as regras a serem seguidas racionalmente. Para Jean-Paul Sartre, a liberdade é a condição ontológica do ser humano: o homem é nada antes de definir-se como algo, e é absolutamente livre para definir-se, engajar-se, encerrar-se, esgotar a si mesmo.

Poderá me perguntar, querido leitor: por que tanto esmero para definir liberdade?

Te responderei, então: numa sociedade em que a lei diz que os homens são todos iguais (então ninguém pode mandar em outro, a não ser que este outro consinta com isso), e dentro dessa igualdade todos são igualmente livres, permite a definição de liberdade como a de Sartre, por exemplo, que diz que o homem é, antes de tudo, livre para definir-se, engajar-se, esgotar-se a si mesmo. É uma liberdade que visa permitir ao homem que seja/faça tudo enquanto não burlar a liberdade/igualdade em relação aos outros. Temos então a definição burguesa de que um homem pode fazer tudo e ter direito a tudo também.

Marx teria uma crítica feroz a isso. Mas não sou marxista. Não poderia, portanto, me restringir à divisão classe dominante/classe dominada para explicar que os homens não têm, nem de longe, esta liberdade que é tão bonitamente descrita pelos homens acima, apesar de achar que este raciocínio tem lá seu fundo de verdade. Tendo mais a ser durkheimiano nesse aspecto.

Os indivíduos livres e iguais da Declaração de Direitos Humanos (produto derivado da RF) são nela tidos como se fossem todos autônomos, mônadas. Em "O Suicídio", Durk(heim) diz que um grupo social, qualquer que seja, deve produzir no indivíduo que a ele (ao grupo) pertence pelo menos duas sensações: a de integração e a de regulação.

Integração ocorre no sentido de sentir-se fazer parte daquilo (do grupo): ter crenças, hábitos, gostos, atitudes... o que quer que seja em comum com os outros pertencentes. Dessa maneira o indivíduo se sente identificado com o agrupamento a que pertence, e não está mais sozinho no mundo.

Regulação ocorre no sentido de que, a partir do momento em que se é parte componente de um agrupamento, haverá um tipo de conduta que se deve tomar, e um tipo de conduta que não se deve tomar para que se siga fazendo parte dele. Um católico não pode cometer adultério; um corinthiano não pode gritar Gol do Flamengo; um maçon não pode revelar seu pertencimento à maçonaria.... e assim por diante.

Bem, espero que até aqui tudo esteja claro. Acho que não há nenhuma novidade até este ponto. É daqui que começo:

Como é que um indivíduo pode ser livre dentro de um grupo? - Considerando que qualquer grupo que seja lhe imporá uma regulação, então o indivíduo nunca será totalmente livre detro de um grupo, qualquer que seja este grupo.

Então liberdade consiste em trocar de grupo quando se quiser? - Imaginando que, dentro de um grupo nunca se terá a liberdade plena, eu diria que esta é a definição que mais se aproxima do que eu descreveria como o máximo de liberdade possível: submeter-se à regulação do grupo a que se escolher pertencer.

Ora, então a liberdade não consiste em fazer tudo o que se puder, mas sim fazer tudo o que seu grupo permitir, e trocar de grupo quando achar que a regulação imposta por um outro é mais agradável (ou menos detestável) do que a do grupo a que já se pertence?! - Eu diria que sim. Nesse caso, liberdade cosistiria em livre troca de regulações, e não de auto-regulação.

Isso é liberdade?

Em minha humilde opinião, não. Por definição, liberdade é algo que só poderia ser objeto de discussão em sociedade. (Me soaria esdrúxulo alguém que morasse sozinho em uma ilha deserta pôr sua liberdade em questão: este pode fazer absolutamente tudo o que quiser: ele não precisa pensar em liberdade, porque o homem fora de sociedade (totalmente auto-suficiente) é, por excelência, a máxima concretização possível da liberdade.)
A sociedade sempre limitará o indivíduo que estiver dentro dela.
Então quem quer a liberdade plena deve abandonar a sociedade? -Considerando que a sociedade sempre exercerá sobre os indivíduos algum tipo de regulação, eu diria que sim.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sobre fortuna, virtú e o Zico

Não é possível ser bem sucedido em tudo na vida. Mesmo porque, o sucesso não é algo que dependa só de uma pessoa, tampouco somente de um único acontecimento, e (ao contrário do que muitos querem tentar nos convencer) não é algo que um bom planejamento consiga garantir. O próprio Maquiavel já dizia que um bom Príncipe deveria ter aliadas em sua pessoa duas características fundamentais para um governante: a FORTUNA e a VIRTÚ (este último vocábulo é, inclusive um termo criado pelo autor dentro desta obra). A virtú seria o talento, o jogo de cintura, o "agir certo na hora certa". Já a fortuna seria o imponderável, o que não se pode prever, nem planejar; a sorte.

Concordo plenamente com a lógica maquiaveliana de que há coisas que se pode controlar (virtú) e outras que não se pode controlar (fortuna). Parto deste pressuposto para o post de hoje.

Quem busca pela excelência nunca terá certeza de que a alcançará, mesmo porque isto não depende exclusivamente de quem a persegue. Entretanto, a vida nos dá chances para que possamos aproximarmo-nos dela. E quando ela (a chance que a vida dá) aparece, pode-se ter diversas reações. Fugir pode ser uma. Deixar para um futuro que nunca chegará pode ser outra. Mas o único caminho que pode conduzir ao máximo da capacidade/potencial que se tem é ir para cima dos desafios. Como já repeti mais de uma vez, ir para cima do desafio significa enfrentá-lo, e não necessariamente vencê-lo.

Da minha parte, julgo que o remorso por não ter tentado será sempre mais intenso do que o desgosto por um eventual fracasso. Por isto sou teimoso demais, e dificilmente fujo das dificuldades que me são impostas por alguém, mesmo que isto me custe altos preços. Há na história um exemplo que acho emblemático para descrever esta minha maneira de pensar/agir.

Dia 21/06/1986.

Quase 25 anos atrás. Após uma copa do mundo em que o Brasil provavelmente jogou seu futebol mais vistoso da história (a copa de 1982), os tupiniquins tentavam honrar o nome do país no México, o país onde o Brasil havia conquistado seu último título mundial em 1970, 16 anos atrás. À sua frente, a perigosa França, do maestro Platini. O jogo estava 1X1, caminhando para o final de seu segundo tempo quando entrou em campo Zico, o astro da Seleção.

2 ou 3 minutos após sua entrada em campo, armou um contra-ataque fulminante para o Brasil, deixando Branco na cara do goleiro, que não teve outra alternativa e derrubou nosso lateral: pênalti para o Brasil. Torcida em êxtase. Zico, a referência daquele time, foi para a cobrança. O resto vocês podem acompanhar som seus próprios olhos aqui.

O jogo terminou empatado e foi para a disputa de pênaltis, onde o Brasil foi eliminado de mais uma Copa do Mundo.

Há muitos meses atrás, talvez um ano, ouvi uma entrevista dele (Zico), que está tendo uma carreira muito bem-sucedida fora dos gramados, onde lhe perguntavam sobre este lance. A pergunta foi algo do tipo: "Ainda hoje (2009, eu acho) você carrega alguma mágoa por ter perdido aquele pênalti em 1986?".

A resposta foi algo assim: "apesar de ainda estar frio e somente há alguns poucos minutos em campo até aquele momento, não me martirizo por ter perdido aquele pênalti. Eu era o centro das atenções naquele momento, a referência do time. Se, ao invés de eu bater, alguém outro o fizesse e perdesse, aí eu teria que conviver com a fama de pipoqueiro até hoje. A responsabilidade era minha. Perdi o pênalti. Mas só perde o pênalti quem bate."

Pra quem não conhece o que este cara jogou em campo, vai aqui um pouquinho disso. Apesar de tudo o que ele sabia de bola, não foi capaz de jogar pra rede aquela bola em 1986. Da mesma maneira que ele, nós, por melhores que sejamos no que fazemos, nunca estaremos a salvo de grandes fracassos e decepções em nossas vidas.

Há acontecimentos na vida que são como testes, que medem o tipo de pessoa que somos. Em 1986, Zico teve o dele. Poderia muito bem ter passado a bucha pra qualquer um dos outros 10 jogadores sob o pretexto "poxa, acabei de entrar, estou frio e não estou confiante". Não foi o que fez. Ciente do craque que era e da responsabilidade que carregava por isso, pegou a bola, pôs na marca da cal e bateu. E perdeu.

Daí terá quem dirá: "ele é maluco"; "quis dar um passo maior que a própria perna"; "se precipitou"... e coisas do tipo. Mas ninguém poderá dizer que ele tenha se apequenado diante de uma situação aguda como aquela. Não jogou a responsabilidade pra ninguém que não ele, e até hoje é cobrado por seu erro. Mas só perde o pênalti quem bate. Num momento como o desse lance, acho muito mais importante o fato em si de se ter tomado coragem e ter batido o pênalti do que o resultado da cobrança. Atitude de quem tem fibra, coisa de gente grande. Belo exemplo. Valeu, Zico.

Comente se se sentir à vontade para fazê-lo. Por hoje é isso.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Os que amam e os blasés

O post de hoje vem quase que num tom de protesto. Não consigo falar racionalmente de coisas que não são racionais.

São poucas pessoas as que têm a capacidade/vontade de amar algo na vida. A explicação para esta falta de amor para mim é muito simples: amar é uma coisa difícil. Demanda tempo, atenção, paciência, sabedoria, muuuuita reflexão.

Talvez por comodismo, talvez por medo de sofrer, talvez por incapacidade mesmo, muitas pessoas optam (ou são cooptadas?) por uma vida de associações superficiais, sem muita profundidade, blasé. Afinal de contas, quem sempre nada na superfície rasa nunca correrá o risco de se afogar. Se todas as pessoas fossem dessa maneira, superficiais para todas as relações que estabelecem, imagino que haveria pouquíssimos problemas de relacionamento. Afinal de contas eles seriam resolvidos de uma maneira fácil: houve um atrito? - corte a relação; mude pra outra, esqueça a pessoa com quem teve o último relacionamento superficial e parta para um novo relacionamento superficial, e assim viveríamos em constantes rodízios de relacionamentos superficiais. E assim relacionar-nos-íamos somente na medida em que o outro fosse necessário para nossa sobrevivência: acabou a necessidade, acabou a relação. Algo muito mais Exato que Humano. Linguagem binária, praticamente.

Sim, na lógica matemática isso funciona muito bem. Pessoas que conheço provavelmente quereriam transformar isso em uma fórmula, tentar numerizar as propriedades relacionamentais que há entre as pessoas. Mas antes que os estatísticos entrem em ação já vou dizendo: esse modelo não fecha. E eu vou dizer o porquê.

Felizmente, (ainda) há pessoas que amam, e que não abrem mão de determinados relacionamentos, e que se dedicarão o quanto puderem para o bem daquilo, afinal de contas o bem do que(m) se ama e o bem da relação que se tem com o que se ama se converte no bem da própria pessoa. Para muitos isso é bem difícil de compreender, justamente porque são muitos os que, por algum motivo são incapazes de entender este tipo de coisa, os blasés.

Aos que têm o "dom do amor", vai aqui meu recado: muitos serão os que vocês encontrarão que não estarão à altura de vosso dom.

Que fazer se estas pessoas cruzarem por vosso caminho? É possível "ensinar" alguém que passou a vida inteira com seus "relacionamentos perecíveis", e que, por consequência tornou-se alguém relacionalmente perecível a "imperecibilizar-se"? É possível ensinar um blasé a amar?

O exemplo melhor que conheço disso são as Igrejas de crentes. Apesar de todo o preconceito que as circunda, elas conseguem, sim Senhor, transformar gente blasé em amantes (pessoas que amam, não me entendam mal). É como se dessem uma causa por que viver às pessoas. Por mais que eu discorde da maneira que isso é feito, conheci pessoas cujas experiências me confirmaram a eficácia destas Igrejas no que diz respeito a isso, e respondem com uma sonoro SIM à última interrogação que pus neste texto.

Mas uma característica própria dessas Igrejas é que elas inserem o "novo crente" em uma comunidade de pessoas que também estão forradas com os princípios cristãos de "amor ao próximo", e que, somente pelo fato de pertencerem a uma mesma comunidade já dedicam a seus pares um "amor fraternal". Fazem com que um blasé, muitas vezes pela primeira vez na vida, sinta-se amado por alguém. É muito mais fácil amar quando já se é amado.

E que resta aos blasés então?
Meu palpite:

1- Tentar serem bem-sucedidos em suas vidas, e converterem seu desejo por felicidade no desejo por sucesso, e se descobrirem felizes por se acharem bem sucedidas (em breve virá um post sobre o sucesso).

2- Dar a sorte de encontrar por aí alguém que esteja disposto a amá-los.

Se sentirem-se à vontade comentem. Por hoje é isso.