domingo, 12 de setembro de 2010

Resolução das incertezas

Este meu Blog está com um perfil extremamente acadêmico. Não que isso seja ruim. Mas, se é para ser acadêmico, há muitos lugares em que se pode ler textos acadêmicos muito melhores que os meus, uma vez que eu sequer formado sou (ainda, é bom que se diga).

Assim sendo, esta será uma das primeiras postagens (se não a primeira) cuja inspiração é de fato uma experiência minha, sentida na pele, e que neste momento em que escrevo, parece que ter fechado uma idéia legal e coesa.

Uma pessoa sábia (e modesta...rs) normalmente passa boa parte da vida se questionando. E só se questiona quem pensa. Quem não pensa já logo aceita algo como dado, pronto, imutável e segue a vida inteira com o mesmo parâmetro e o mesmo paradigma. Não estou dizendo que isto seja melhor ou pior, longe de mim. O fato é que eu não sou assim, seja isto bom ou ruim.

"Que seria melhor pra mim?"; "Estou no lugar certo?"; "Estou fazendo o que deveria ser feito?"; "Estou agindo de acordo com a perspectiva que eu aspiro pra mim?"; "Que será de mim daqui um ano?"; "E daqui 5 anos?". Enfim, as perguntas que podem surgir (e surgem) são muitas. Dependendo da fase da vida então... (vixi...), elas podem se multiplicar mais que um casal de coelhos trancafiados numa jaula escura.

Nos últimos meses, passei por um período recheado de incertezas. Não sou alguém que tenha uma relação saudável com incertezas, principalmente quando elas interferem diretamente na minha vida e no meu futuro. Foi um período extremamente angustiante este que passou (reparou o tempo verbal do último verbo?). Não, eu não respondi a todas as minhas perguntas, querido leitor, e nem sei se algum dia terei a resposta pra tudo. Provavelmente não terei. Melhor assim.

Mas nas minhas poucas décadas de vida já pude chegar a algumas conclusões:
1ª- Fazer mal a si próprio não é algo bom
2ª- Fazer mal a outrem tampouco

Isso me soa óbvio. Provavelmente para meus leitores também soará. Mas isso não responde muita coisa, não é?

Não, não é, querido leitor. Imagine o paraíso em que viveríamos se todos tivessem fixas em suas respectivas cabeças estas duas certezas. Não dá pra imaginar.
Bom, isto prova que estas duas certezas não são tão óbvias assim.

Gente que se perde nas drogas, no álcool, na putaria, no jogo..., enfim, são muitas as maneiras por que se pode se prejudicar. Nem entrarei no mérito de cada um dessas "possibilidades de perdição" (isso seria a volta ao academicismo, que é justamente do que estou tentando fugir neste post).

Voltemos às duas certezas. Elas não indicam um caminho a ser percorrido. Mas fazem justamente o oposto: indicam o caminho a não ser percorrido. Isso já é um ótimo começo.

Não é fácil encontrar seu próprio caminho. O meu (se é que eu de fato encontrei) foi escolhido na base de muita reflexão, e da tentativa/erro, e mesmo assim ainda há várias variáveis indefinidas no entorno. Mas as incertezas nunca param de aparecer, e se um dia pararem é sinal de que se parou de pensar.

Minha conclusão não será a resolução para todas as incertezas do mundo. Tentar isso seria tão megalomaníaco quanto burro da minha parte.

Se você tem uma dúvida, é sinal de que você tem uma escolha a fazer. Não são muitos os que podem escolher. Me arrisco a dizer que são muitos os que não podem escolher. Quem escolhe é um privilegiado, alguém que tem uma oportunidade que outros não tem. Para tomar uma decisão pessoal importante é importantíssimo olhar para a pessoa do lado (ou de baixo).

Portanto, pensar no coletivo (e no bem do coletivo) sempre é uma boa escolha. Quem ajuda o coletivo tende a ser ajudado por ele, ou no mínimo por parte dele. E mesmo que o retorno não venha, a simples sensação de dividir com alguém o que te foi dado, mas não foi dado a outrem já deveria ser suficientemente gratificante. Isso ajudou a sanar parte de minhas incertezas, e provavelmente te ajudará a resolver as suas, leitor.

Uma ação voltada para o bem-comum nunca é uma ação errada. Isto é uma certeza.

Tem certeza?

Paro por aqui hoje.

domingo, 5 de setembro de 2010

Mulheres peladas

Há até pouco tempo atrás o preconceito com mulheres que tinham os holofotes virados para si era tão grande, que as artistas mulheres eram socialmente igualadas a prostitutas. Lugar de mulher decente era em casa, ou na Igreja. Jamais em cima de um palco.

Há alguns séculos, nos teatros, as personagens mulheres eram representadas por homens. As próprias óperas de algum tempo atrás não tinham mulheres executando os agudos mais agudos. Esses eram executados por homens, que na grande maioria das vezes eram eunucos.

Os tempos mudaram, e ainda bem que mudaram. Para o bem da arte e do público, os papéis femininos passaram finalmente a ser representados por mulheres. Demorou. Isso fez parte de um grande movimento de emancipação feminina, cujas origens remontam ao Iluminismo e à Revolução Francesa.

O que gostaria de por em questão neste post, leitor, é a maneira pela qual a mulher aparece no campo artístico de modo geral. Não me referirei aqui à cultura erudita, tal como óperas e mesmo operetas, ou teatros de peças extremamente restritas. Não é a isso que estou me referindo por arte.

Meu foco é a "arte pop". É a novela da Globo, é a artista cujo clipe aparece na TV e a música toca no rádio, é a apresentadora de TV... enfim, artistas na pior acepção da palavra. Artistas "a la TV Fama". É a estas que estou me referindo.

A primeira coisa que me passa pela cabeça ao pensar nas mulheres artistas que tenho contato é a quantidade de roupas que costumam usar. Lady Gaga, Madonna, Jennifer Lopez, Angelina Jolie, Carla Perez, Angélica, Xuxa, Mara Maravilha, Eliana, Grazi Massafera, todas as atrizes jovens da Globo, e todas as cantoras jovens que aparecem.

São poucas as exceções, querido leitor.

Agora me diga: quais são os homens artistas que precisam apelar para a "semi-nudez"? Quase nenhum. Não consigo puxar nenhum de memória.

"Ah, será ele vai defender que homens têm que tirar a roupa também?"

De maneira alguma, prezado leitor. Este foi um mero artifício de que me utilizei para ilustrar como é a imagem da mulher na TV. É só ter um pouco mais de proeminência para ser convidada para aparecer pelada na PlayBoy, ou outra do mesmo gênero.

Mais que isso, observando as tendências artísticas contemporâneas, me parece que a mulher artista tende a ter cada vez menos roupa. No clipe "Telephone", Lady Gaga aparece com uma quantidade de roupa suficiente para que o youtube restrinja a exibição do clipe para acessantes maiores de idade. Há 20 anos atrás a Madonna não aparecia tão "descoberta" assim. E quanto mais longe se for no tempo, mais coberta estará a mulher artista.

Talvez o ponto extremo disso seja o Funk. Há quem defenda que certas "linhas" do ritmo, tal como a Gaiola das Popozudas, promovam a emancipação da mulher, por exemplo. Essas colocariam a mulher numa posição superior à do homem, uma vez que seriam elas (as próprias mulheres) quem ditaria a ocorrência ou não do ato sexual e seus desdobramentos. Apareceram defendendo isso no programa da Luciana Gimenes (outro ótimo exemplo do que estou falando) certa vez.

Uma mulher que se auto-denomina Popozuda, e declara seu poder tendo em vista o domínio no campo sexual não me parece alguém muito emancipada da condição de "mulher-objeto". Este vídeo mostra bem a maneira pela qual o Funk emancipa as mulheres.

É dificílimo encontrar uma mulher que apareça na grande mídia que tenha seios pequenos e não tenha colocado silicone, que nunca tenha saído na PlayBoy ou qualquer outra enquanto no auge de sua carreira, que não tenha feito de tudo para se engravidar de um homem famoso enquanto em destaque, que não tenha que usar um decote monstruoso a cada vez que vem a público, ou que nunca tenha feito pelo menos umas 05 cirurgias plásticas. As exceções são (além das atrizes e cantoras mais velhinhas) Denise Fraga, Sandy, Fernanda Torres (esta última ainda com algumas ressalvas), e as apresentadoras de telejornal.

Parece que uma mulher artista não pode se apresentar ao "grande público" como ela mesma enquanto dentro da grande mídia. Não pode ter uma identidade/imagem muito divergente da que se evidencia claramente nas propagandas de cerveja, por exemplo.

Após muitos séculos foi permitido às mulheres que aparecessem em público. Isso foi uma grande conquista. Emanciparam-se da "esfera privada totalizante". Mas pode-se afirmar que de fato tenham um status semelhante ao dos homens no espaço público?

Indo ainda mais a fundo: pode-se afirmar que essas sejam de fato artistas, no sentido de desenvolverem uma arte (pintar ou atuar ou cantar) de maneira extremamente competente?

Deixo resposta a seu cargo, leitor(a).

Por hoje é isso.

sábado, 14 de agosto de 2010

A "lógica", el Mago, e o futebol.

Olá, leitores. Este post está dividido em 04 partes.

PARTE I

Hoje meu post tratará de um assunto que há muito deveria já ter sido tratado neste blog. Talvez eu estivesse esperando a oportunidade certa para falar deste assunto. Esta semana apareceu a oportunidade de ouro. Lá vou eu, então.

Há alguns séculos o "homem ocidental" (usei esta palavra por não ter outra melhor) deixou de trabalhar pra viver, e passou a viver para trabalhar. O dinheiro deixou de ser um meio para atingir as coisas, e as coisas (e até mesmo as pessoas, em alguns casos) se tornaram um meio para chegar ao dinheiro.

É lógico, leitor crítico, que há exceções a isso. Mas imagino que você não discordará de mim se eu disser que a maioria das pessoas "proeminentes" de nossa sociedade acabam por seguir a lógica que descrevi acima. Muitas delas têm justamente nesta lógica a origem de sua proeminência. Nossa sociedade premia com prestígio e reconhecimento social os que "trabalham pesado" e têm grandes riquezas como fruto deste trabalho. São essas pessoas os "modelos" para nossa sociedade, basta ligar a TV ou sair na rua para averiguar isto.

PARTE II

Pois bem. Nesta semana a Sociedade Esportiva Palmeiras apresentou seu reforço, Jorge Luís Valdivia Toro, ou simplesmente "Mago Valdívia" para os palestrinos.

E este blogueiro particularmente é um grande fã deste jogador (tanto que a única imagem permanente deste blog é um gesto de "psiu" feito por este jogador em um dos últimos grandes jogos que tivemos a oportunidade de assistir).

Talvez isto se deva ao fato de que eu, o blogueiro, não vejo o futebol apenas como um jogo. O Vôlei é um jogo. O Tênis é um jogo. O Xadrez é um jogo. Nenhum deles desperta tantas paixões humanas como o futebol. Somente por futebol (e por mais nenhum outro esporte) é que se vive, se mata e se morre. Exatamente por isso que defendo a idéia de que o futebol é algo muito maior do que um simples jogo.

E o Mago Valdívia talvez não seja o mais técnico dos jogadores, apesar de ter jogado a Copa da África-2010 com a 10 do Chile às costas. Mas não é somente sua técnica o que me encanta. Valdívia tem uma capacidade raríssima no futebol moderno: ele sente o jogo. Ele provoca os adversários. Brinca com a bola. Leva a torcida (e este blogueiro) ao delírio, seja com seu "drible do vento", seja pelo fato de não ter vergonha de entortar os adversários com seus dribles, ou pelo fato de provocá-los nas comemorações. Corinthianos, e são-paulinos, nossos dois maiores adversários, sabem do que estou falando.

PARTE III

Em meados de 2008, poucos tempo depois de a S.E. Palmeiras ter se sagrado campeã paulista, Valdívia, mesmo não querendo, acabou sendo vendido. A lógica financeira falou mais alto pelos lados do clube. Aqueles poderiam ter sido os R$ 20 milhões (valor recebido pelo clube) mais caros de nossa história.

A partir do início do ano de 2009, momento que Luiz Gonzaga Belluzzo foi eleito presidente da S.E. Palmeiras, nossa diretoria caiu na real e começou a se mexer pra que os ídolos recentes do clube para cá voltassem. Este movimento está atingindo seu ápice agora, no segundo semestre de 2010. Primeiro voltou Kléber, o Gladiador. Depois, Felipão. Faltava alguém, entretanto. Alguém que nos fazia tanta falta quanto os dois anteriores.

O Palmeiras não tinha, entretanto, dinheiro suficiente para fechar o negócio. Nos faltava pouco mais de R$ 5.000.000,00, o que não é pouca grana. Eis então, que surge o protagonista principal do post de hoje (e não é o Mago Valdívia): Osório Furlan.

Este cara provavelmente não é um nome conhecido de nenhum de meus leitores. Ele é palmeirense, e também é executivo do alto quadro da Sadia. Ao saber que o que faltava para que "El Mago" enfim voltasse para a S.E.P. estava a seu alcance pessoal, foi lá e pôs sua grana.

CONCLUSÃO

É verdade que receberá no futuro seu dinheiro de volta do Palmeiras. Mas não levarei em conta aqui possibilidades do tipo: "ah, ele fez isso para ganhar prestígio político dentro do clube", ou "ele receberá parte do lucro se o atleta for vendido posteriormente", mesmo sabendo que elas podem realmente ser verdadeiras.

Prefiro ficar com o trecho:

" Eu me ofereci, o Belluzzo não me procurou para isso (para que colocasse o dinheiro que faltava). Não fiz pensando em lucro, o retorno virá. Não quero morrer rico, quero morrer feliz." Fonte: Lancenet

Esta última frase, particularmente, me pegou em cheio. O cara está abrindo mão (por algum período de sua vida) de R$ 5,1 milhões. R$ 5,1 milhões que eram sua propriedade, é bom que se diga.

Lembra da "lógica financeira Ocidental" que descrevi no início deste post, caro leitor? Não foi por esta que Furlan conduziu sua ação. Para este homem o dinheiro voltou a ser um meio. Um meio de trazer alegria. Quer melhor maneira de se gastar o dinheiro que esta? Há uma finalidade melhor que esta? Osório Furlan fez, nesse processo, um bem para si. Mas fez um bem muito maior para mim e para todos os que amam este clube. Todos os palestrinos poderão, novamente, ver um de seus melhores jogadores dos últimos tempos em ação, nos representando.

Mas o que é mais emocionante é saber que temos lá em cima pessoas que respeitam e amam o clube do mesmo jeito que fazemos aqui em baixo. Melhor ainda é ver, por meio de um ato como esse, que o Palmeiras é algo que está acima da "lógica" (o que é que é lógico, afinal?!), mesmo que seja só para um cara, e só por um instante.

Pode ser que tudo isto não passe de ilusões e idealizações minhas. Sim, pode ser. Mas prefiro acreditar nisso, pelo menos até quando eu acordar amanhã de manhã.

Longa vida à SEP. Longa vida ao futebol e à superação que ele promove nos homens, estejam eles dentro ou fora de campo.

"Não quero morrer rico, quero morrer feliz." O. Furlan - (eu disse que ainda escreveria algo sobre isso)

Paro por aqui por hoje.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

O Ocidente dos antropólogos

Nas férias não tenho a obrigação de ler nada. Talvez seja por isso que as postagens neste blog se tornem mais freqüentes justamente durante o período de férias. Quando a carga de leitura diminui, a carga de raciocínio aumenta.

O post de hoje será absolutamente massante para quem não se interessa por ciências humanas (leia-se antropologia, nesse caso). Mas como a idéia do blog é justamente a de escrever o que acho que deva ser escrito, lá vou eu:

Não sei se existe de fato (um tipo de) "propósito final" na antropologia. Talvez não. Mas certamente pode-se dizer que uma de suas premissas é jamais avaliar o outro de acordo com seus (de quem avalia) próprios parâmetros. Se alguém o faz, este alguém é um etnocêntrico, um cara que avalia outros grupos de acordo com os parâmetros dos grupos nos quais o etnocêntrico está inserido. Esta é uma das lições mais básicas que se aprende em um curso de antropologia.

Pois bem. Pelo pouco que estudei desta matéria, pude perceber que uma forte corrente que se desenvolve nela é o estudo de agrupamentos periféricos (indígenas, na maioria das vezes) e a busca, dentro desses agrupamentos da forma pela qual eles se constroem enquanto grupo.

Isso é muito bonito, em minha opinião. Uma vez que a maioria das pessoas tende a avaliar determinado grupo de acordo com parâmetros que não são os do grupo avaliado, é um trabalho realmente nobre buscar compreender o outro da mesma maneira pela qual ele próprio se concebe.

É a partir daqui que eu entro. Conversando com alguns amigos meus da área, tenho percebido uma recorrente preocupação com a compreensão de grupos periféricos. Não acho que isso não deva ser feito, é bom que se diga.

O problema é que percebo uma espécie de "sinismo" nisso tudo. Sei que a palavra é pesada. Mas é meio revoltante, leitor. Vou explicar a origem da minha "revolta":

Os antropólogos são sempre os primeiros a dizer que não existe raça, cultura... provavelmente em algum tempo nem mesmo a divisão de "sexo" irá sumir. Beleza. O problema é que os estudantes de grupos periféricos buscam sempre uma comparação com o "Ocidente". Este post gostaria de perguntar aos antropólogos:

Quem é o Ocidente?

É a baiana que se veste com aquelas roupas brancas tradicionais, vende acarajé e reza para Iemanjá? Ou é o gaúcho que veste bombacha, toma chimarrão e dança fandango? Ou é o americano que ouve Lady Gaga, dança Michael Jackson e come no McDonald's? Quem é o Ocidente? São todos eles? Ou não é nenhum deles?

Mais ainda:

Se existe uma constante insistência em dizer que cada lugar é um lugar, e que cada "cultura" (sempre com aspas) é uma cultura, então por que é que se põe o "Ocidente" inteiro dentro do mesmo saco? Dª Antropologia, a senhora não julga falar em "Ocidente" um erro conceitual de sua própria constituição? Isso não é uma (espécie de) "generalização do ingeneralizável"?

Me arriscaria dizer que é um mero recurso retórico que permite aos estudantes de grupos periféricos dizer algo do tipo:

"Está vendo, os Xs têm uma concepção de espaço diferente dos ocidentais." ou "Enquanto no Ocidente se pensa assim, nos Ys se pensa de outro jeito." Mas os ocidentais têm realmente entre si uma concepção de espaço que é homogênea? Os ocidentais pensam do mesmo jeito?

Será que o "propósito final" (se é que este existe) da antropologia é se tornar um almanaque de curiosidades? Se não é, gostaria de saber que é "o Ocidente dos antropólogos".

Acho que já fui suficientemente claro em minha proposta. Vou parar por aqui.

É isso.

domingo, 18 de julho de 2010

Polêmica pra cachorro

Minha cabeça está pouco fértil esses últimos tempos. Isso não quer dizer que ela tenha parado de pensar, é bom que se diga.

O post de hoje se dedicará a polemizar. Acho que o que defenderei nele não será algo com que meus leitores(as) concordarão. Entretanto, como o nome do blogue já supõe, não há razão para se recear que ele defenda coisas doidas, não é verdade?

Pois bem. Recentemente recebi em meu email uma mensagem que se referia a um projeto de lei que, se entendi bem, visava proibir o sacrifício de animais no estado de São Paulo. Acho que era isso.

Meu escrito de hoje não se referirá diretamente a esta lei, mas sim ao tipo de relação que julgo ser cabida entre homem e animal dentro de uma sociedade (ao menos) predominantemente humana.

De uns tempos pra cá entrou na moda defender direitos dos animais. Do mesmo modo que também entrou na moda defender o verde e a preservação da natureza. Há 15 anos esse "discurso naturalista/preservacionista" era bem periférico. Hoje é ele quem predomina.

Não sou a favor do assassinato de cães nem da destruição da natureza. É bom que isso fique claro.

Mas o que me incomoda é o discurso de parte dos ativistas (principalmente dos) que defendem os "direitos dos animais". A meu ver, eles colocam os animais na frente dos seres humanos. É isso pra mim o que é inadmissível. Vou repetir: INADMISSÍVEL.

Como me dá raiva ver programas de TV (leia-se Luisa Mell e afins) em que se mostra Shopping para cachorros, estilista para cachorro, psicólogo (pasmem!) para cachorros. O que mais me espanta é saber que tem gente que se digna a gastar dinheiro com (me desculpe) absurdos desse tipo.

Enquanto isso, gente dormindo sobre papelão em calçadas não tão distantes, crianças pedindo esmola na rua, meninas vendendo o corpo aos 12 anos. E gente levando o seu lindo cãozinho ao dog stylist (acredite, esta aberração realmente existe). Muito bonito!

Aí vem o Exmo. Deputado (ou Vereador, ou sei lá o quê) propor que não se sacrifique os cães sem dono do estado. Pergunto ao propositor e aos defensores deste projeto de lei: é quem é que vai cuidar dos cães que não têm dono?

Eles serão cuidados pelo poder público? Então o governo terá que gastar dinheiro para alimentar e cuidar desses cães, certo? Hmmmm... então o que se poderia gastar em transporte, educação, saúde (humana, lógico) se gastará cuidando dos cães sem dono. Hmmmm... ótima maneira de gerir o dinheiro!

Ou então eles serão largados pelas ruas? Para serem atropelados pelos carros que passarem? Para ficarem sujeitos a doenças (que também podem matá-los) e transmití-las aos humanos? Isso realmente é melhor que o sacrifício?

Acho que a única maneira de um projeto de lei como este se tornar socialmente viável é a seguinte:

Uma ONG de defensores dos "direitos dos animais" se prontificar perante a sociedade a gerir com DINHEIRO PRIVADO os cães sem dono da cidade. A essa ONG ficaria a incumbência de promover um eficiente sistema de adoções, e cuidar dos animais enquanto sem dono. Com o dinheiro que ELES forem capazes de arrecadar de maneira privada. Aí sim. Não se pode admitir que se gaste dinheiro público com animais, enquanto há humanos com sérias necessidades, e uma vez que não são os animais os que pagam impostos.

Na inexistência de uma organização PRIVADA que se dedique (e se comprometa com o poder público e preste contas a ele) a isso, não se pode proibir o sacrifício de animais sem dono.

Sou defensor da idéia de que animais devem pertencer à esfera privada, com algun(s) cidadão(s) responsabilizando-se por esse(s) animal (is). Enquanto não perturbarem a ordem pública, ótimo. Se isso não ocorrer, o que vale é a lei da selva.

Para encerrar, uma historinha sobre isso:

Conta-se que na China colonial, devido ao fato de o Império passar por sucessivas crises de fome, o imperador certa vez proibiu que houvesse cães e gatos pelo império. Animal achado era animal na panela.

Justíssimo, a meu ver.

Não se pode admitir que em um lugar onde se passa fome alguém ouse dar comida a um animal ao invés de alimentar a outro humano.

É justamente nessa linha que defendo ser um absurdo se gastar dinheiro cuidando de animais enquanto há outros humanos (como o(s) dono(s) deste dinheiro) com mais necessidades, sendo estas muito mais importantes de serem atendidas do que as dos animais.

É isso.

sábado, 15 de maio de 2010

Amandos e Sucessandos

Como meus leitores mais assíduos já devem ter percebido, tudo que tange as relações entre pessoas é um tema muito caro a este blogueiro. Em um post anterior falei sobre o amor. Essa eu considero a capacidade (nem sempre aproveitada) mais importante que todos possuem. É um raro tesouro que, quando posto em ação produz um bem igualmente grande tanto para o indivíduo quanto para o coletivo em que este se insere.

Como deixei bem evidente naquele post, tenho consciência de que não são muitos os que se aproveitam desta capacidade, um vez que ela exige tempo, devoção, paciência e um monte de outras virtudes que não é necessário explicar para quem ama, e é impossível explicar para quem não ama (blasé). Este blogueiro acredita que o amor é o caminho mais seguro para felicidade, seja ela individual, seja ela coletiva.

Como escrevi no outro post, um blasé pode tentar a busca de sua felicidade por meio do sucesso, do sucesso próprio. O sucesso não demanda relações profundas com ninguém a não ser consigo próprio. Isso põe o sucesso muito mais próximo do alcance do que o amor.

É importante que eu defina a que estou me referindo com a palavra sucesso: é toda e qualquer finalidade individual, seja ela política, econômica, acadêmica, profissional... que pode ser alcançada por meio de algum planejamento racional, e que não atribui nenhuma importância para o amor.

Enquanto quem ama (que, para facilitar a escrita e a leitura chamarei de "Amando") tem que estar a todo o tempo preocupado consigo próprio e com que(m) ama, quem busca o sucesso pessoal (que chamarei se "Sucessando") só tem que se preocupar consigo próprio e com seus intentos pessoais.

Há, entretanto um problema. O Sucessando está tão ou mais imerso no mundo das pessoas quanto o Amando. Mais que isso, o Sucessando depende de muito mais gente do que o Amando.

(Como bem lembrou minha amiga Dani em um comentário ao referido post, não se pode amar a tudo e a todos ao mesmo tempo)

O amor torna certas pessoas/entidades especiais. Essas pessoas/entidades são, portanto, "selecinadas" por quem as ama (os Amandos). Já diria Weber, esta é uma relação social comunitária, que nesse caso se baseia no amor (e faz parte de uma ação social afetiva).

O sucesso já diverge nisso: ele não é um sentimento, mas sim uma finalidade a ser alcançada. Algo racional, portanto. Então, quem visa o sucesso não escolhe com quem se relacionar (durante o tempo em que agir com a finalidade do sucesso, logicamente): se relaciona com quem tiver maior potencial para alavancar-lhe ao sucesso, independentemente de quem seja a pessoa. Ele (Sucessando) converte a relação que tem com outras pessoas em um relação que se tem com um meio (para o sucesso) ou com um obstáculo (ao sucesso). Marx já dizia algo parecido com isso, mas falava da conversão da relação entre pessoas em uma relação entre coisas. Em ambos os casos ocorre uma objetivação das relações pessoais.

O Sucessando é incapaz de enxergar em sua frente algo que divirja do seguinte binarismo: pessoas-meio X pessoas-obstáculo. É com esse tipo de gente (?!) que ele se relaciona.

Eventualmente dois ou mais Sucessandos podem se agregar em torno de uma causa comum a que ambos aspirem. Um se torna uma pessoa-meio para o outro, e dessa maneira eles se agregam. Estabelecerão entre si uma relação de fidelidade, uma vez que há um objetivo em comum sendo perseguido por todos eles. Hmmmmm..... então este é um caminho por meio do qual aproximaram-se do amor os Sucessandos, certo?

Errado!

Uma relação que se estabelece pela existência de um fim comum a todas as pessoas não torna as outras pessoas indispensáveis! Muito pelo contrário, este tipo de relação torna o fim (e somente o fim) indispensável, e as pessoas totalmente dispensáveis.

A partir do momento em que um Sucessando disser para o outro que o fim a que buscam já não é mais o mesmo, irá cada um para seu lado (novamente). Não há nada, absolutamente nada que seja capaz de mantê-los juntos. Se eles se unem é exclusivamente porque há entre eles um objetivo comum. Acabou o objetivo, acabou a relação. Desse jeito. Utilitarismo puro. Os Sucessandos devem conhecer bem esta lógica.

Isso na melhor da hipóteses, já que ainda existe a possibilidade de um Sucessando trair o outro (o que, acredite, não é nada raro). Nesse caso, a glória do Sucessando traidor nunca é maior do que o fracasso do Sucessando traído. Numa situação de traição, o Sucessando traidor muito se orgulhará de ser um Sucessando, e o Sucessando traído se arrependerá (ao menos por um instante) amargamente de ter estabelecido uma relação com este outro Sucessando.

Pode ser que (o traído) se perguntará desesperado "por que razão não sou Amando, meu Deus do céu?". Entretanto, eu acho mais provável que ele se pergunte "por que fui tão burro e não o traí antes?". Não nos esqueçamos de que um Sucessando é racional.

Falando nisso, onde estavam os Amandos durante todo esse tempo? -Bom, provavelmente estavam sorrindo e comendo o bolo que prepararam juntos. Benditos sejam os Amandos. Espero que em algum dia desta minha vida consiga me tornar um deles.

É isso por hoje.

sábado, 24 de abril de 2010

Liberdade?

Quanto mais estudo menos penso. É esta a razão de um lapso tão grande entre o último texto e o de hoje. Já faz mais ou menos 60 dias desde a última postagem, a do Zico.

Bom, hoje mais uma vez começarei meu escrito me referindo à famigerada Revolução Francesa. Não tenho muito como fugir dela, pois é ela o fato que marca o início de Modernidade, e de todos os problemas que esta trouxe consigo.

Feita por uma classe burguesa que estava em busca de emancipação dos moldes da sociedade tradicional, que não lhes (aos burgueses, e todo o resto que não era nem clero nem nobreza) permitia ascensão política, e desta maneira lhes submetia ao poder da nobreza e do clero (cuja extensão se dava por sangue/hereditariedade, e não por posses), a RF (Revolução Francesa) trouxe consigo os ideais que guiam as sociedades modernas até hoje: Liberdade e Igualdade (há também a Fraternidade, mas não tenho esta por objeto em meu texto de hoje).

Uma sociedade em que os homens fossem iguais e livres permitiria aos burgueses ter tanto poder quanto qualquer clérigo ou nobre (o que seria impensável antes disso). Isso nesse tempo foi realmente chocante, um absurdo. Por isso se chamou Revolução (e não Evolução, por exemplo).

Fazendo o link com as sociedades Modernas, que se dizem democráticas, há uma tendência em todas suas legislações que tende a fazer com que a liberdade de um indivíduo e a igualdade deste perante os outros seja incontestável.

Para Kant, ser livre é ser autônomo, isto, é dar a si mesmo as regras a serem seguidas racionalmente. Para Jean-Paul Sartre, a liberdade é a condição ontológica do ser humano: o homem é nada antes de definir-se como algo, e é absolutamente livre para definir-se, engajar-se, encerrar-se, esgotar a si mesmo.

Poderá me perguntar, querido leitor: por que tanto esmero para definir liberdade?

Te responderei, então: numa sociedade em que a lei diz que os homens são todos iguais (então ninguém pode mandar em outro, a não ser que este outro consinta com isso), e dentro dessa igualdade todos são igualmente livres, permite a definição de liberdade como a de Sartre, por exemplo, que diz que o homem é, antes de tudo, livre para definir-se, engajar-se, esgotar-se a si mesmo. É uma liberdade que visa permitir ao homem que seja/faça tudo enquanto não burlar a liberdade/igualdade em relação aos outros. Temos então a definição burguesa de que um homem pode fazer tudo e ter direito a tudo também.

Marx teria uma crítica feroz a isso. Mas não sou marxista. Não poderia, portanto, me restringir à divisão classe dominante/classe dominada para explicar que os homens não têm, nem de longe, esta liberdade que é tão bonitamente descrita pelos homens acima, apesar de achar que este raciocínio tem lá seu fundo de verdade. Tendo mais a ser durkheimiano nesse aspecto.

Os indivíduos livres e iguais da Declaração de Direitos Humanos (produto derivado da RF) são nela tidos como se fossem todos autônomos, mônadas. Em "O Suicídio", Durk(heim) diz que um grupo social, qualquer que seja, deve produzir no indivíduo que a ele (ao grupo) pertence pelo menos duas sensações: a de integração e a de regulação.

Integração ocorre no sentido de sentir-se fazer parte daquilo (do grupo): ter crenças, hábitos, gostos, atitudes... o que quer que seja em comum com os outros pertencentes. Dessa maneira o indivíduo se sente identificado com o agrupamento a que pertence, e não está mais sozinho no mundo.

Regulação ocorre no sentido de que, a partir do momento em que se é parte componente de um agrupamento, haverá um tipo de conduta que se deve tomar, e um tipo de conduta que não se deve tomar para que se siga fazendo parte dele. Um católico não pode cometer adultério; um corinthiano não pode gritar Gol do Flamengo; um maçon não pode revelar seu pertencimento à maçonaria.... e assim por diante.

Bem, espero que até aqui tudo esteja claro. Acho que não há nenhuma novidade até este ponto. É daqui que começo:

Como é que um indivíduo pode ser livre dentro de um grupo? - Considerando que qualquer grupo que seja lhe imporá uma regulação, então o indivíduo nunca será totalmente livre detro de um grupo, qualquer que seja este grupo.

Então liberdade consiste em trocar de grupo quando se quiser? - Imaginando que, dentro de um grupo nunca se terá a liberdade plena, eu diria que esta é a definição que mais se aproxima do que eu descreveria como o máximo de liberdade possível: submeter-se à regulação do grupo a que se escolher pertencer.

Ora, então a liberdade não consiste em fazer tudo o que se puder, mas sim fazer tudo o que seu grupo permitir, e trocar de grupo quando achar que a regulação imposta por um outro é mais agradável (ou menos detestável) do que a do grupo a que já se pertence?! - Eu diria que sim. Nesse caso, liberdade cosistiria em livre troca de regulações, e não de auto-regulação.

Isso é liberdade?

Em minha humilde opinião, não. Por definição, liberdade é algo que só poderia ser objeto de discussão em sociedade. (Me soaria esdrúxulo alguém que morasse sozinho em uma ilha deserta pôr sua liberdade em questão: este pode fazer absolutamente tudo o que quiser: ele não precisa pensar em liberdade, porque o homem fora de sociedade (totalmente auto-suficiente) é, por excelência, a máxima concretização possível da liberdade.)
A sociedade sempre limitará o indivíduo que estiver dentro dela.
Então quem quer a liberdade plena deve abandonar a sociedade? -Considerando que a sociedade sempre exercerá sobre os indivíduos algum tipo de regulação, eu diria que sim.